PROFESSORES SÃO INVENTORES

Bons professores são inventores. Eles sabem que aprendemos quando criamos e refletimos sobre nossas criações. Imaginam situações que provoquem seus alunos a vivenciarem o processo criativo. E costumam inventar estratégias que provocam a descoberta até mesmo das teorias e conceitos mais estabelecidos, de forma que sejam inaugurais a cada vez que são apresentados.

Essa descoberta renovada para o professor é o processo de criação original para o estudante. O compartilhamento desse momento de nascimento do conhecimento traz a cumplicidade que deve ser própria das relações na escola. É essa cumplicidade questionante em face ao desconhecido e ao imponderável que faz da aprendizagem por projetos uma das metodologias mais interessantes e mobilizadoras em uso nos dias atuais.

Na aprendizagem por projetos realiza-se a descoberta fundamental de que o mais importante é desenvolver uma abordagem investigativa que, em diálogo com o entendimento conceitual, é capaz de produzir boas perguntas. Perguntas que revelam interesse genuíno em conhecer. Contudo, esse não é um processo simples ou espontâneo: para produzir esse encantamento, professores precisam planejar, provocar e acompanhar. Dar diretrizes e fornecer insumos. Informações são insumos, assim como conceitos e teorias também o são. Como articulá-los e dar sentido a eles?

Lembremos das lições dos velhos navegadores, aqueles inventores de novos horizontes e mundos. Eles ensinam que o bom vento não é o vento de popa que vem por traz e é aprisionado pelas velas que lhe fazem resistência. Não! Eles sabem que bom mesmo é o vento de través, aquele que atravessa a vela, que a torna prenhe de potência e faz o barco avançar com velocidade. Assim é o conhecimento criativo: ele se torna conhecimento pleno de significado e potência não quando o guardamos, como a vela prende o vento; conhecimento produz movimento quando ele nos atravessa, quando a informação se torna um elemento que nos inspira e, assim, ela passa a ter sentido.

Trabalhar com projetos não é coisa trivial. Fazer educação nos tempos de hoje exige muito mais do que transmitir e armazenar informações. Os novos tempos cobram de professores a capacidade de imaginar e desenvolver propostas curriculares que superem a costumeira fragmentação disciplinar e avancem para uma visão articulada, interdisciplinar e transdisciplinar. É preciso propor conexões aos estudantes e experimentá-las criativamente em contextos os mais variados.

Uma das 10 competências gerais da educação básica estabelecidas pela nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC)* trata justamente sobre isso. A BNCC dispõe que, a partir da educação escolar, todo estudante tem o direito de saber “exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas”. Para isso, a Base traz um conjunto de referenciais expressos na forma de competências e habilidades essenciais que todo estudante brasileiro tem direito de desenvolver. Esses referenciais constituem uma espécie de celeiro de possibilidades destinadas a alimentar o processo crítico e criativo das escolas, seus professores e seus estudantes. São eles que, no exercício de sua autonomia, haverão de examinar a matéria prima contida na BNCC e fazer as escolhas que resultarão no currículo, nas diferentes propostas pedagógicas, nos diversos planos de aula, nas pesquisas e nos projetos experimentais. Dessa maneira, a norma nacional que instituiu a Base procura assegurar aos professores e seus estudantes a prerrogativa da criação autoral.

Esse cuidado é tão importante que, ao aprovar a BNCC, o Conselho Nacional de Educação fez questão de enfatizar que a Base não é currículo; não é currículo único, tampouco currículo mínimo. Em todo o texto da BNCC está claro que a forma de organização ali apresentada é apenas de um arranjo possível, entre outros que as escolas e redes de escolas poderão elaborar. Os conteúdos e habilidades que o documento da Base relaciona com as diferentes áreas e componentes, ano a ano, para todo o Ensino Fundamental, constituem um conjunto de insumos, uma espécie de inspiração para a elaboração e implementação de diferentes concepções curriculares. Portanto, ao tomar a BNCC como referência, educadores não devem se sujeitar a qualquer forma de alinhamento automático e acrítico. Nem se submeter a tarefas de simples adaptação ou pobres práticas de “corta e cola”. Reduzir a Base a currículo significaria eliminar toda a rica diversidade tão importante para uma educação que queremos plural, comprometida com os valores da democracia, da justiça social e do desenvolvimento sustentável. Significaria, ainda, eliminar a atuação inventiva dos professores, sem a qual não há possibilidade de descoberta compartilhada ou de construção inaugural de conhecimento. A BNCC é um referencial, não uma receita. Desta maneira, uma educação baseada em projetos experimentais deve levar a Base em consideração, mas reinventá-la a cada momento.

Na área de ciências da natureza, incluindo aí os domínios da matemática, esse tipo de visão é essencial. A BNCC sugere a superação das concepções arcaicas de um experimentalismo sem teoria que pode resultar num fazer sem pensar, num ativismo meramente instrumental e desprovido de significado. E indica que o ensino não se limite a conceitos e fórmulas abstratos, buscando sempre conexões com as possibilidades de intervenção na realidade do mundo físico e social. Além disso, ao sugerir campos temáticos de experiência ( "Terra e Universo", "Matéria e Energia", por exemplo), a Base enfatiza a importância de uma abordagem interdisciplinar do ensino e da aprendizagem. Esse é o espírito que deve permear uma educação baseada em projetos que tenha como referência a Base Nacional Comum Curricular.



(*) Cesar Callegari é sociólogo. Como Conselheiro membro do Conselho Nacional de Educação, presidiu a Comissão de Elaboração da Base Nacional Comum Curricular. Foi Secretário Executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Secretário de Educação Básica do MEC e Secretário de Educação do Município de São Paulo. É Presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada.

(**) A Base Nacional Comum Curricular relativa ao Ensino Fundamental e à Educação Infantil foi aprovada em dezembro de 2017 pelo Conselho Nacional de Educação conforme o Parecer CNE nº 15/2017 e a Resolução CNE nº 2/2017. A proposta de BNCC do Ensino Médio foi apresentada pelo MEC ao CNE em abril de 2018 e ainda estava em discussão quando esse artigo foi concluído em outubro de 2018.



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